Guia técnico
Logística internacional e comércio exterior: o guia técnico que você precisa antes de importar ou exportar
Incoterms, contêineres, pallets, caminhões e como calcular o volume da sua carga: tudo o que é preciso entender antes de movimentar mercadoria entre países, explicado em linguagem simples para quem está começando.
Conteúdo
- Incoterms para qualquer meio de transporte
- Incoterms somente para transporte marítimo
- Como escolher o Incoterm correto
- Tipos de contêineres e sua capacidade
- Como calcular os m³ da sua carga
- Tipos de pallets
- Tipos de caminhões para transporte terrestre
- Glossário de comércio exterior
- Erros comuns ao usar Incoterms
- Perguntas frequentes
Incoterms para qualquer meio de transporte
Este grupo de 7 termos pode ser usado com transporte marítimo, aéreo, terrestre ou multimodal. É o grupo recomendado pela ICC para a maioria das operações, exceto quando se trata de carga a granel exclusivamente marítima.
| Incoterm | Significado | Transferência de risco | Quem paga o transporte principal |
|---|---|---|---|
| EXW | Na fábrica (Ex Works) | No domicílio do vendedor, mercadoria sem carregar | Comprador — desde a porta do vendedor |
| FCA | Franco transportador (Free Carrier) | Ao entregar a mercadoria ao transportador designado pelo comprador | Comprador |
| CPT | Transporte pago até (Carriage Paid To) | Ao entregar ao primeiro transportador | Vendedor — até o destino combinado |
| CIP | Transporte e seguro pagos até (Carriage and Insurance Paid To) | Ao entregar ao primeiro transportador | Vendedor, incluindo seguro com cobertura ampla (Cláusula A) |
| DAP | Entregue no local (Delivered at Place) | No local de destino combinado, sem descarregar | Vendedor — até o destino, sem incluir descarga |
| DPU | Entregue no local descarregado (Delivered at Place Unloaded) | No destino, já descarregada | Vendedor — único Incoterm em que o vendedor descarrega |
| DDP | Entregue com direitos pagos (Delivered Duty Paid) | No destino, com todos os trâmites e tarifas pagos | Vendedor — assume até as tarifas de importação |
EXW e DDP são os dois extremos: no EXW o vendedor faz o mínimo possível (o comprador organiza tudo desde a fábrica), e no DDP o vendedor faz o máximo (entrega porta a porta com impostos de importação pagos). A maioria das operações reais se situa em um ponto intermediário.
Incoterms somente para transporte marítimo e vias navegáveis
Estes 4 termos são usados exclusivamente quando a mercadoria viaja por mar ou por uma via navegável interior, e o ponto de entrega é um porto. Não correspondem a carga em contêiner entregue em um terminal, onde o tecnicamente correto é usar FCA em vez de FOB.
| Incoterm | Significado | Transferência de risco | Quem paga o transporte principal |
|---|---|---|---|
| FAS | Franco ao costado do navio (Free Alongside Ship) | Ao colocar a mercadoria junto ao navio no porto de embarque | Comprador — desde o costado do navio |
| FOB | Franco a bordo (Free on Board) | Ao carregar a mercadoria a bordo do navio | Comprador — desde que a mercadoria está a bordo |
| CFR | Custo e frete (Cost and Freight) | Ao carregar a bordo do navio (igual ao FOB) | Vendedor — paga o frete até o destino, mas o risco já passou |
| CIF | Custo, seguro e frete (Cost, Insurance and Freight) | Ao carregar a bordo do navio | Vendedor — frete e seguro mínimo (Cláusula C) até o destino |
Uma nuance frequente: no CFR e no CIF, o vendedor paga o frete até o porto de destino, mas o risco se transfere bem antes — quando a carga sobe ao navio na origem. Se a mercadoria se danificar em trânsito marítimo, a reclamação é do comprador, não do vendedor.
Como escolher o Incoterm correto para sua operação
- Se você é importador e está começando agora: o FCA costuma ser o ponto de partida mais razoável. O vendedor entrega a mercadoria pronta para exportar, e você controla a logística internacional a partir desse ponto — o que geralmente proporciona melhores tarifas de frete se você já trabalha com um forwarder de confiança.
- Se você quer previsibilidade total de custos: o DDP transfere todo o trabalho e o risco ao vendedor, incluindo as tarifas de importação. É cômodo, mas normalmente mais caro e com menos controle sobre a classificação tarifária — que você faz ou o fornecedor faz por você.
- Se for carga a granel exclusivamente marítima: aí sim faz sentido usar FOB ou CIF, os termos pensados especificamente para esse caso.
- Se o fornecedor insistir em EXW: verifique se o preço realmente reflete que você assume todo o transporte desde a fábrica, incluindo o carregamento do caminhão — um ponto que muitas vezes gera atrito porque o vendedor não é obrigado a carregar o veículo.
De qualquer forma, a escolha do Incoterm afeta diretamente a base tributável sobre a qual se calculam as tarifas de importação (por isso no Paraguai o valor CIF é a base habitual), então convém decidi-lo junto com quem gerencia o despacho aduaneiro, não de forma isolada com o fornecedor.
Tipos de contêineres marítimos e sua capacidade real
A maior parte da carga geral se move em dois tamanhos padrão (20 e 40 pés), com variantes conforme o tipo de mercadoria. Estas são as medidas e capacidades de referência da indústria — podem variar levemente conforme o fabricante do contêiner.
| Tipo | Medidas internas (aprox.) | Capacidade | Peso máximo de carga (aprox.) | Uso típico |
|---|---|---|---|---|
| 20' Padrão (Dry Van) | 5,89 × 2,35 × 2,39 m | 33,2 m³ | 21.700 kg | Carga geral, mercadoria densa/pesada |
| 40' Padrão (Dry Van) | 12,03 × 2,35 × 2,39 m | 67,6 m³ | 26.800 kg | Carga geral volumosa, menos densa |
| 40' High Cube | 12,03 × 2,35 × 2,70 m | 76,2 m³ | 26.500 kg | Carga volumosa e leve (móveis, têxteis) |
| Reefer (refrigerado) 20'/40' | um pouco menor que o Dry Van equivalente | 28–60 m³ conforme o tamanho | similar ao Dry Van | Perecíveis, produtos que exigem cadeia de frio |
| Open Top | similar ao Dry Van, sem teto rígido | similar ao Dry Van | similar ao Dry Van | Carga estivada por cima com guindaste (maquinário alto) |
| Flat Rack | plataforma sem paredes laterais | variável | até ~40.000 kg conforme o modelo | Carga superdimensionada ou muito pesada (maquinário, tubos, veículos) |
Na prática, raramente se chega a 100% da capacidade teórica: recomenda-se planejar entre 85% e 90% de aproveitamento para deixar margem de manobra, estiva e fixação da carga.
Quantos pallets cabem em cada contêiner? Usando pallets europeus (1,2 × 0,8 m), um contêiner de 20 pés comporta cerca de 11 pallets em uma única camada (até o dobro se estivados em dois níveis), e um de 40 pés entre 23 e 24 pallets em uma camada. Com pallets americanos/Mercosul (1,2 × 1,0 m), esses números caem para aproximadamente 10 e 20-21 pallets respectivamente, porque cada pallet ocupa mais superfície.
Como calcular os m³ (CBM) da sua carga
O cálculo é simples: multiplicam-se as três medidas de cada volume (em metros) e esse resultado é multiplicado pela quantidade de volumes iguais.
Exemplo prático: uma caixa de 0,50 m de comprimento × 0,40 m de largura × 0,30 m de altura mede 0,06 m³. Se o pedido são 200 caixas iguais, a carga total é 0,06 × 200 = 12 m³.
Esse número (o CBM, de "cubic meters") é o que os forwarders usam para cotar o frete em cargas LCL (consolidadas, que não enchem um contêiner completo), e serve para decidir se convém consolidar com outros importadores ou reservar diretamente um contêiner completo (FCL). Como regra geral, a partir de aproximadamente 15 m³ costuma começar a ser mais vantajoso cotar um contêiner de 20 pés completo em vez de carga consolidada, embora o ponto exato dependa das tarifas vigentes em cada corredor.
Cuidado com o "peso volumétrico": em transporte aéreo e em alguns trechos terrestres, o frete é cobrado pelo maior valor entre o peso real e o peso volumétrico (calculado a partir do volume). Convém pedir esse esclarecimento ao forwarder antes de fechar a cotação.
Tipos de pallets e por que o tamanho importa
| Tipo de pallet | Medidas | Uso típico |
|---|---|---|
| Pallet europeu (EUR/EPAL) | 1,20 × 0,80 m | Padrão na Europa; o mais eficiente para contêineres estreitos |
| Pallet americano / Mercosul | 1,20 × 1,00 m | O mais usado na América do Sul, incluindo o Paraguai |
| Pallet GMA (americano padrão) | 1,22 × 1,02 m (48×40 polegadas) | Padrão nos Estados Unidos |
| Meio pallet | 0,80 × 0,60 m | Cargas pequenas, farmacêutica, varejo |
Além do tamanho, importa o material: os pallets de madeira que cruzam uma fronteira internacional devem cumprir a norma fitossanitária ISPM-15 (tratamento térmico ou fumigação com brometo de metila, certificado com o selo oficial estampado na madeira). Um pallet de madeira sem esse selo pode ser rejeitado ou retido na alfândega de destino. Os pallets plásticos não exigem esse trâmite, por isso muitos exportadores os preferem para evitar atrasos.
Tipos de caminhões para o transporte terrestre
Uma vez que a carga chega por navio ou avião, no Paraguai — país sem saída para o mar — o trecho final é quase sempre terrestre, tipicamente a partir de um porto da Argentina, do Brasil ou do Uruguai. Os tipos de unidades mais usadas nos corredores do Mercosul são:
- Carreta com chassi portacontêiner: a unidade mais comum para mover um contêiner completo (FCL) do porto até o depósito do importador, sem necessidade de desconsolidar a carga.
- Sider (lonado): baú fechado com lona lateral corrediça, permite carga e descarga pela lateral com empilhadeira; muito usado para carga paletizada geral.
- Baú rígido: baú fechado fixo, sem abertura lateral, para mercadoria que precisa de maior proteção ou segurança.
- Caminhão/carreta refrigerado: com equipamento de frio próprio, para manter a cadeia de frio no trecho terrestre de produtos perecíveis.
- Bitrem: combinação de caminhão mais dois semirreboques, habilitada em rotas específicas do Cone Sul, que permite transportar maior volume ou peso em uma única viagem e reduz o custo por tonelada em longas distâncias.
- Plataforma: sem laterais nem teto, para cargas superdimensionadas ou maquinário içado com guindaste.
Glossário de comércio exterior que vale a pena conhecer
- Valor FOB: o valor da mercadoria posta a bordo do meio de transporte na origem, sem incluir frete internacional nem seguro.
- Valor CIF: valor FOB + frete internacional + seguro. É a base habitual sobre a qual se calculam as tarifas de importação no Paraguai e na maioria dos países da região.
- NCM / posição tarifária: o código de 8 dígitos (Nomenclatura Comum do Mercosul) que classifica cada produto e determina qual tarifa lhe corresponde. Uma classificação incorreta é uma das causas mais comuns de atrasos e multas na alfândega.
- Certificado de origem: documento que comprova o país de fabricação da mercadoria, necessário para acessar tarifas preferenciais dentro de acordos comerciais como o Mercosul.
- Bill of Lading (B/L) / conhecimento de embarque: o documento de transporte marítimo que funciona como contrato, recibo da carga e, em sua versão negociável, título de propriedade da mercadoria.
- Despachante de aduana: o profissional habilitado que representa o importador ou exportador perante a alfândega e gerencia o despacho. No Paraguai é obrigatório para operações comerciais.
- Regime de admissão temporária / maquila: regimes especiais que permitem importar insumos com benefícios tributários quando o destino final é a reexportação, muito usados em manufatura orientada à exportação.
- Forwarder / agente de carga: o intermediário que coordena o transporte internacional (marítimo, aéreo ou terrestre) entre a origem e o destino, consolidando carga e negociando tarifas com armadores ou companhias aéreas.
Erros comuns ao usar Incoterms
- Usar FOB para carga em contêiner: é tecnicamente incorreto e gera ambiguidade sobre quem assume o risco enquanto o contêiner espera no terminal antes de subir ao navio. O correto nesse caso é FCA.
- Não especificar o local exato: um Incoterm sem o local preciso ("FCA" isolado, sem indicar o endereço ou terminal) é fonte constante de disputas. Deve sempre vir acompanhado do local: "FCA Porto de Xangai", "DAP Assunção — depósito do comprador".
- Confundir transferência de risco com pagamento do frete: no CFR e no CIF o vendedor paga o frete, mas o risco já é do comprador desde que a carga sobe ao navio. São duas coisas distintas que não coincidem em vários Incoterms.
- Não atualizar contratos antigos: contratos que ainda citam Incoterms 2010 (por exemplo "DAT", que já não existe, substituído por DPU) geram confusão jurídica. Convém revisar e atualizar a referência para Incoterms® 2020.
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Qual é a diferença entre Incoterms 2010 e 2020?
A principal mudança foi substituir o DAT (Delivered at Terminal) pelo DPU (Delivered at Place Unloaded), que amplia o conceito para qualquer local, não só um terminal. Também se reforçou a cobertura de seguro mínima exigida no CIP (agora Cláusula A, cobertura ampla, antes Cláusula C) e se acrescentou a opção de o FCA incluir um conhecimento de embarque com anotação "a bordo" quando o pagamento é com carta de crédito.
Os Incoterms determinam quem paga as tarifas de importação?
Sim, na maioria dos casos. Em todos os Incoterms exceto o DDP, o comprador/importador é quem paga as tarifas e tributos de importação no país de destino. Só no DDP essa obrigação recai sobre o vendedor.
Qual Incoterm convém para começar a importar pela primeira vez?
O FCA costuma ser um bom ponto de partida: é claro, funciona com qualquer meio de transporte e dá controle sobre a logística internacional sem a complexidade operacional do EXW (onde é preciso organizar até a retirada na fábrica do fornecedor).
Os Incoterms são obrigatórios por lei?
Não. São um padrão privado da Câmara de Comércio Internacional (ICC) que as partes adotam voluntariamente no contrato de compra e venda. Uma vez pactuado, tem sim efeitos jurídicos vinculantes entre comprador e vendedor.
O que acontece se o contrato não mencionar nenhum Incoterm?
A operação fica regida pelas condições gerais que as partes tenham pactuado ou, na falta delas, pela legislação aplicável — que costuma ser menos clara e mais propensa a disputas sobre quem assume o risco em cada etapa. Por isso se recomenda sempre especificar o Incoterm e o local exato.
Quantos m³ minha carga precisa ter para justificar um contêiner completo?
Não há um número fixo, mas como referência geral, a partir de aproximadamente 15 m³ costuma começar a ser mais vantajoso reservar um contêiner de 20 pés completo (FCL) do que pagar carga consolidada (LCL), embora o ponto exato varie conforme as tarifas vigentes em cada corredor e a urgência do envio.
Os pallets de madeira têm algum requisito especial para exportar?
Sim. Todo pallet de madeira que cruza uma fronteira internacional deve cumprir a norma fitossanitária ISPM-15 (tratamento térmico ou fumigação, certificado com um selo oficial na madeira). Sem esse selo, a alfândega de destino pode reter ou rejeitar o envio. Os pallets plásticos evitam esse trâmite.
Este guia tem fins informativos gerais sobre as regras Incoterms® 2020 publicadas pela Câmara de Comércio Internacional (ICC), e sobre padrões habituais da indústria naval para contêineres e pallets, e não constitui assessoria jurídica, aduaneira ou logística. As capacidades de contêineres podem variar levemente conforme o fabricante e o armador. Cada operação de comércio exterior tem particularidades que convém validar com um despachante de aduana ou um forwarder antes de definir o Incoterm, o tipo de contêiner ou a modalidade de transporte a utilizar. Fontes consultadas: publicações da ICC sobre Incoterms® 2020 e padrões técnicos da indústria de contêineres marítimos ISO, revisadas em julho de 2026.